domingo, 27 de outubro de 2019

A Grande História da Evolução - na trilha de nossos ancestrais



Existem motivos que me levam a olhar de soslaio um livro cuja capa estampa de forma tão destacada a palavra quase mítica Evolução. Hoje, acumulo uma desconfiança adicional com qualquer coisa que procure evidenciar o termo quântico em se tratando de livros ou artigos de forma geral. Um receio natural, que chega a ser quase instintivo, já que vivemos em um mar de informação não filtrada, onde simples opiniões praticamente se forçam a conviver com evidências científicas como se estivessem em pé de igualdade. Mas voltando ao livro, a palavra Evolução se sobressai justamente em uma capa de coloração vermelha viva, quase penetrante. Mas vamos com calma. Dê mais alguns instantes ao seu cérebro, ele precisa processar aquele detalhe amarelado abaixo do título, que faz questão de se mostrar contrastando com a capa "sopa de tomate". Quando você lê o nome, leva segundos para você relaxar, se tranquilizar e pegar o livro em mãos.

Este é com certeza o livro mais volumoso publicado por Richard Dawkins. E desafiador, diga-se de passagem. Um convite de mais de setecentas páginas para seguir nos textos bem elaborados e elegantes de um dos maiores evolucionistas de nossa época. Depois de dezenas de obras dedicadas ao tão incompreendido e fascinante processo evolutivo, o autor provavelmente se viu impulsionado a propor com suas próprias palavras uma obra que pudesse fazer jus à beleza e profundidade que é a história e evolução das espécies. Penso algumas vezes que ele deve ter parado em um determinado momento e refletido sobre o extenso conteúdo de dezenas de livros-texto de ciências biológicas, e como seria interessante que aquelas informações organizadas de forma sistemática e tediosa, usadas para guiar os estudos de alunos de graduação, pudessem ser transformadas em um texto suave e corrido, com um alcance maior do que a restrita comunidade discente acadêmica. Será que esta história tão fascinante poderia ser contada de forma melhor?

Pois bem, ela pode. E foi o que Dawkins conseguiu fazer. Claro que seu extenso livro não é um curso de zoologia ou coisa parecida. Mas sim um passeio conduzido por um cicerone que conhece os melhores pontos para contar a história. Preciso aqui destacar duas características que tornam a obra única. A primeira é que ele convida o leitor a se aproximar das histórias através do que ele chama de "contos", que são as separações dentro da narrativa do texto, onde ele mantém o leitor atento à uma mistura de explicações, experiências pessoais, descrição de experimentos, todas circulando no entorno dos protagonistas dos contos. Essencialmente, não faz muita diferença, mas não deixa de ser uma forma original de trabalhar o texto.

O segundo é uma proposta ousada e realmente diferente. Dawkins decide contar sua história de trás pra frente. Isso mesmo. Ele começa falando das espécies mais derivadas (neste caso, os hominídeos) e vai caminhando, descendo degrau após degrau, visitando os outros organismos partindo do mais complexo para o mais simples. Nossa história da evolução começa, se podemos dizer assim, de forma invertida. A princípio você não sabe muito bem se vai dar certo, e decide confiar no autor nesta jornada inusitada. É no mínimo divertido ler sobre a evolução dos organismos partindo dos homens, passeando pela diversidade até culminar nos organismos unicelulares. E no lápis de Dawkins, vale muito a pena.

Com uma narrativa divertida, recheada de histórias (algumas engraçadas), rica em fatos e informações que vasculham pela genética, diversidade e química, seu livro com certeza mantém o padrão do que se espera de sua autoria. Publicada pela Companhia das Letras, com folhas amareladas e foscas e tipografia elegante, ainda contém no seu interior alguns encartes coloridos. E não esqueça das referências. Você vai gostar bastante deste volume.

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

A Pré-História da Mente - uma busca das origens da arte, da religião e da ciência



Quando peguei esse livro em mãos eu me perguntei no primeiro momento: "como um arqueólogo pode saber alguma coisa sobre mente?". Dei uma risadinha no meu íntimo e comecei a folhear a obra, procurando informações complementares e um pouco do conteúdo. Qual não foi a minha surpresa ao descobrir que o título do primeiro capítulo era justamente a minha irônica pergunta. Não precisou de mais nada. Fui até o caixa e comprei o livro de Steven Mithen. Vamos ver o que ele tem para nos contar.

O primeiro aviso é que este livro é basicamente arqueológico. Fósseis, pedaços de lanças, pinturas rupestres, ferramentas neolíticas e ossos aos montes recheiam as páginas. Até aqui tudo bem e dentro do esperado. A primeira parte da obra se propõe a ser mais didática, e detalha certos aspectos históricos e uma arqueologia mais básica, para situar o leitor no universo que está sendo apresentado. Uma cortesia do autor, que tem a boa vontade de oferecer um pouco de preparo para introduzir o grosso da obra. Mas é no correr do texto que vamos encarar uma guinada de arrepiar e que dá um gosto especial para as páginas seguintes. Tateando nas pistas e lascas de pedra como um Sherlock Holmes, ele tenta destrinchar a forma que os primeiros hominídeos pensavam sobre o mundo que os envolvia, e instiga algumas perguntas bem interessantes. Por exemplo, ele nos sugere que o método para se construir uma lâmina útil, cortante, com pedras quebradas de forma a criar uma superfície afiada, provavelmente não veio do que instintivamente imaginamos que deve ter acontecido - quebrar um monte de pedras até chegar num pedaço afiado - o clássico "acerto-e-erro". O autor propõe que o cérebro dos hominídeos seja dotado de uma percepção quase que instintiva sobre física básica, de forma que ele tenha procurado quebrar rochas no sentido de fazer elas quebrarem justamente da maneira que gerasse uma superfície laminar. Achei uma ideia ousada, e por que não dizer original. E ele não para por aí.

Se sustentando em pesquisas com primatas e um bom conhecimento de psicologia geral, o autor nos oferece uma nova forma de pensar sobre a mente, e conduz o leitor de forma suave e raciocinada para chegar em sua própria teoria da evolução da mente. Acho que sua jogada mais inovadora é propor que o cérebro do homem primitivo já veio com uma espécie de caixa de ferramentas para compreensão do mundo, que veio junto com seus instintos naturais de sobrevivência, ambos tendo se desenvolvido em seus ancestrais. O homem teria uma espécie de inteligência social, para interagir com outros humanos e outras espécie. Uma inteligência técnica, que lhe facultou criar ferramentas, e por fim uma inteligência naturalista, que o auxilia a ter uma imagem mental do que está ao seu entorno. E o mais intrigante é que da forma como a narrativa é conduzida, sua teoria não deixa de fazer sentido.

Depois de passear confortavelmente na sua proposta, o autor dedica o final da obra para como essas inteligências podem ter refinado nosso pensar até chegarmos a ideias mais abstratas, a religião e a origem da agricultura, como sendo um resultado lógico da evolução de nossa mente. A escrita não se destaca pela sua fluidez, mas é muito rica e informativa. Publicado pela UNESP Editora, o livro tem uma capa anormalmente dura, com uma tipografia que passeia mais pelo estilo de obra didática, apesar do texto correr uniforme. Ao final de cada capítulo diversas notas e uma boa referência bibliográfica. A obra é interessante, mas não espetacular. Você vai ler, gostar e talvez lembrar-se dela em um momento ou outro.

domingo, 20 de outubro de 2019

7 dicas de como escolher livros de divulgação científica




Decidi escrever este texto depois de dar uma boa olhada no meu blog e na minha prateleira de livros. Passeando as vistas sobre os meus títulos, me deparei com algumas obras que me foram presenteadas como sendo científicas, e que na verdade não eram. Por um conselho de amigo, me abstenho de resenhar volumes que decididamente não gostei, ou são claramente enganadores. Felizmente esta literatura é mais escassa, e logo nas primeiras paginadas você já reconhece o estilo maroto do autor que quer vender gato por lebre.

Me recordando disto, pensei em sugerir algumas dicas que possam nortear o leitor de ciência para escolher um bom volume. Baseado em minha experiência, talvez estes pequenos conselhos possam ser úteis na hora de investir um bom dinheiro em uma obra que realmente valha a pena ser lida. Vamos lá.

1) Títulos e subtítulos. Estes são o principais chamativos de uma obra. É aqui que o pessoal do marketing cai em cima, para elaborar a melhor forma de motivar você a começar a folhear uma obra. Se for uma tradução, não esqueça de olhar o nome do título original. Veja se houve alguma deturpação, ou se pegaram realmente a ideia original e a transcreveram da forma mais fiel possível. Isso não é um indicador de que o livro presta ou não, mas uma forma de você ver se eles foram bons o suficiente para adaptar o que o autor quis dizer. Mesmo que o título seja gigante e feito para chamar sua atenção, fique atento nos subtítulos. Às vezes, eles são mais reveladores e servem como um excelente resumo da obra. Já li muitas textos com títulos horríveis, que foram “salvas” pelos subtítulos.

2) Temas. Seja prudente com a obra que você vai escolher. É certo que os leitores de divulgação científica têm suas preferências por áreas. Se você sabe que o assunto a ser abordado é mais frequentemente usado de forma equivocada, e pouca gente tem realmente um bom domínio no assunto, é hora de você folhear o texto e se certificar de que o autor tem compromisso com o embasamento científico. Temas polêmicos são usados tanto por autores de má fé como autores de ciência. Ambos para diferentes fins, obviamente. Se certifique de que o escritor é realmente um conhecedor da área para não confundir alhos com bugalhos.

3) Autores. Aqui não tem muito mistério. À medida que você vai lendo obras de ciência, você vai se acostumando com determinados estilos dos autores. Neste caso, você começa a se interessar pelo que ele tem a dizer, ou reconhece que seu jeito de abordar os assuntos lhe é agradável. Quanto mais famoso, geralmente menos dúvida você tem em estar comprando uma obra que vai lhe satisfazer. Por outro lado, se o autor não é conhecido, recomendo que você busque na própria obra um pouco sobre ele. Veja sua formação. Se ele for um cientista, que esteja lecionando em uma universidade ou trabalhe em um instituto de pesquisa, é mais confiável que ele traga informações cientificamente embasadas. Por outro lado, ele pode ser um jornalista da ciência, ou um divulgador científico popular. Nestas duas ocasiões, se dá um voto de confiança para ver se ele se mantém a mesma desenvoltura no terreno da escrita. Aqui é um passo de risco mesmo. Você está apostando que ele é bom, e vai pagar pra ver.

4) Bibliografia. Aqui eu recomendo fortemente que você vá para o final da obra e folheie quais as referências que ele utilizou para construir seu texto. Meu nível de confiabilidade na obra é proporcional ao número de artigos científicos e livros consultados. É comum que você seja apresentado a novos e talentosos autores desta forma, e isto é uma grande vantagem. Fiquei sabendo de livros de divulgação científica muito interessantes justamente porque eles haviam sido citados por outros autores que eu estava lendo. E não tinha encontrado eles na internet ou prateleiras de livrarias. E quando a obra é boa, o autor do livro que você está lendo faz questão de mencionar isso. Quando olhar a bibliografia, tome cuidado para ver se as referências usadas fazem sentido. Por exemplo, se é um livro sobre física, há periódicos de física que tendem a publicar artigos de maior qualidade. Se o autor bebeu desta fonte, as chances de ser uma obra mais esclarecedora são altas. Agora tome cuidado: certos livros recorrem a artigos científicos que foram publicados há muito tempo atrás. E nesta época, era mais fácil publicar sobre pseudociência. Se não for uma obra de cunho histórico, preste atenção no que ele cita e como ele cita suas referências.

5) Ilustrações. Uma obra de divulgação científica pode ou não conter imagens. Ao folhear, passe as vistas e se detenha um pouco nelas. Livros científicos costumam recorrer a imagens, esquemas e gráficos. Se você reconhecer certas ilustrações com temas corriqueiros de natureza científica com os quais você já está familiarizado, é uma boa indicação de que o texto está indo no caminho certo. Caso ainda tenha dúvidas, pegue a legenda da figura e procure no livro em que contexto ela está sendo abordada. Muito dificilmente uma obra cita uma ilustração de forma solta. Ela deve estar sendo discutida no corpo do texto. 

6) Editoras. Até algum tempo atrás, eu nunca tinha prestado atenção se a editora influenciava uma obra. Minha opinião mudou radicalmente depois de uma dezena de títulos lidos. Existem certas editoras que gostam de investir em obras de ciência, e decidem traduzir e comercializar um volume quando ele tem um bom respaldo científico. Por outro lado, outras buscam títulos polêmicos ou chamativos, simplesmente para fazer dinheiro ou apenas achando que ela é científica por usar alguma palavra “da ciência”. Notei que boa parte de meu acervo pertence a um grupo muito reduzido de editoras. Já vi livros com temas científicos atraentes, produzidos por editoras que são conhecidas por publicar obras de cunho esotérico. Uma folheada rápida é suficiente para que você evite uma cilada. Editoras grandes e conhecidas tem certa confiabilidade nas obras que decidem comercializar, porque precisam ser mais prudentes ao que vão oferecer ao seu público. Editoras universitárias também são boas fontes de obras confiáveis.

7) Leia um ou dois parágrafos da obra. Com o tempo e experiência, você vai começar a notar que é possível se identificar com algum autor apenas vendo como ele costuma escrever as coisas. Nem todo cientista ou escritor de divulgação científica em começo de carreira acerta de primeira. E talento para escrever não é uma coisa muito comum. Então eu recomendo que você pegue o volume, encontre uma cadeira mais confortável se tiver, e encare parte do texto. Digo um ou dois parágrafos porque geralmente isto basta para você sabe se o texto é interessante, está ao seu gosto e agrado. Se o autor for bom, não importa o que ele esteja falando, vai lhe chamar a atenção. Isso pode ser bom ou ruim. Use seu raciocínio para identificar nas entrelinhas a mensagem que ele quer passar. 

Estas sugestões servem para ser observadas simultaneamente, quando você estiver em dúvidas se vai ou não adquirir uma obra. Na maioria das vezes (não todas, certamente) eu me senti satisfeito com a obra que adquiri, seguindo este raciocínio. E então sinto que tenho errado menos ao longo do tempo, e investido mais em obras que vão realmente acrescentar ao meu acervo. Espero que vocês achem estas sugestões úteis e possam aproveitar bastante nas suas próximas aquisições.

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Por que as Pessoas Acreditam em Coisas Estranhas - pseudociência, superstição e outras confusões dos nossos tempos



Uma obra prefaciada pelo consagrado Stephen Jay Gould não é de se deixar de lado. E se você não conhece Jay Gould, abra uma segunda aba no seu navegador, vá para o site de uma sebo de sua preferência e encomende alguma obra dele. Infelizmente não há perspectivas para que seus livros sejam reeditados, e praticamente todos estão esgotados nas editoras.

E o que torna um livro tão especial para ser prefaciado por este paleontólogo que já apareceu em Os Simpsons, conversando com Lisa Simpson sobre o suposto aparecimento de um fóssil de um anjo nas escavações de uma obra (lembro do episódio como se estivesse assistindo agora)? Digamos que neste caso, o título simplesmente diz tudo. Boa jogada de marketing que deu muito certo, para um público formado por leitores ávidos por literatura cética escrita por um homem que foi fundador e redator do famigerado magazine The Skeptical Inquirer. Jay Gould era um defensor do pensamento cético, e deve ter sentido prazer em prefaciar o volume de um cético tão ativo quanto ele. Então,  mãos à obra.... quero dizer, vamos à obra.

Nota-se que seu autor, o americano Michael Shermer, fez o dever de casa para poder escrever o livro. Posso dizer que ele apresenta uma obra bem recheada de argumentos e de histórias. Seu estilo flui de forma quase jornalística, provavelmente em decorrência de sua experiência como redator, o que torna a leitura bem mais agradável. Dá pra notar que ele está ávido para fazer narrativas, mas claramente sua intenção de deixar o livro mais condensado é um freio no seu lápis, e ele procura se moderar. Sua escrita tenta criar um balanço entre a tendência de contar histórias com a necessidade de passar a compreensão que temos de como entendemos o mundo. Ele navega justamente nas falhas e tendências que nosso cérebro tem em relação à interpretação do mundo ao redor, e como isso afeta nosso poder de percepção e compreensão da realidade. O texto é bem recheado de fatos e personalidades, ora conhecidas, ora desconhecidas, o que torna a leitura bem mais agradável. Como é de praxe, ele procura diferenciar ciência de pseudociência, e é bom ao abordar sobre falácias. Recomendo que leia com mais atenção nesta parte. Dedica um tempo relativamente curto para fazer isso, e então entrega boa parte da obra para uma visão cética e acirrada de casos envolvendo crenças equivocadas e superstições. Encontramos então um Shermer ativista do ceticismo.

Talvez ele tenha se alongado demais nestes casos muito específicos. Shermer parte para uma análise crítica de experiências de quase-morte, abduções, criacionistas e negadores do holocausto. Sua veia jornalística neste ponto parece saltar e ele se deixa levar pelo instinto investigativo. Mas seu estilo torna a viagem agradável, e você se depara com histórias interessantes. Algumas destas protagonizadas por ele mesmo. Vale a pena seguir o texto. Além de tudo, esta obra é um alerta constante para a incrível e infindável criatividade daqueles que buscam a cada momento se aproveitar das falhas de nosso maquinário cerebral tem de pensar criticamente. Se você já navegou nas obras pseudocientíficas de auto-ajuda, vai encontrar alguns nomes famosos nestas páginas. Ao final, ele parte para um curioso tópico, no qual procura explicar por que pessoas inteligentes acreditam em coisas estranhas. Uma verdadeira cereja do bolo.

Publicado pela JSN, o livro tem páginas brancas e foscas, de capa mole. O espaçamento entrelinhas é pequeno e as fontes se adaptam para facilitar uma leitura continuada, onde variam conforme se destacam as citações. O livro é ilustrado e conta com um índice remissivo e boas referências bibliográficas. É uma obra que vale a pena ter em casa.

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Em busca da divulgação científica perdida: A XII Bienal Internacional do Livro de Pernambuco



Pois é. Munido de minhas alpercatas de passeio (como se eu tivesse outras), fui encarar o templo literário da perdição (é fácil você ficar perdido naquele labirinto de stands) com uma missão a cumprir. Mais uma bienal e mais um desafio: promoções de livros de divulgação científica, sejam de novos autores estreando no terreno ou dos clássicos que já conhecemos.

Primeiramente, não tenho críticas à bienal. Pelo menos críticas muito sérias. O espaço é amplo e a proposta é louvável. Você vai encontrar muitas promoções e livros verdadeiramente baratos. Como é de se esperar, as editoras vão jogar todas as suas cartas na divulgação da literatura mais comum e mais atraente para o maior público possível. Inclua aí livros autores consagrados, os grandes clássicos, obras que deram origem a blockbusters nos cinemas e seriados famosos. Por exemplo, nunca tinha visto uma oferta tão escancarada das obras de Stephen King, justamente depois do lançamento de uma das melhores adaptações de seu conto para a telona. Passei a considerar o filme It 2 uma obra quase messiânica, pois fez um verdadeiro milagre (re)colocando o consagrado autor da literatura de terror de volta nas mesas destacadas de muitas editoras. E tinha gente na fila do caixa comprando o tijolo de King por até setenta reais.

Por outro lado, o leitor mais específico sai perdendo. Centenas e centenas de títulos espalhados sem muita ordem sobre mesas e prateleiras apinhadas de pessoas. Dá uma sensação de claustrofobia agoniante pela qual nem todo mundo está bem preparado para passar. Talvez seja um efeito do começo da Bienal, quando os primeiros visitantes querem aproveitar o que tem disponível. De verdade, não sei. Mas nas minhas buscas, senti uma profunda falta de ordem que pudesse me orientar para um porto seguro feito de livros de divulgação científica, em praticamente todos os stands.

Em uma curta jornada de quase três horas (a oferta é realmente muito grande, e não dá pra passar as vista de forma mais meticulosa em cada uma das editoras neste espaço de tempo), senti profundamente a falta de autores de popularização científica. Para não dizer que não encontrei nada, consegui enxergar na editora Imperatriz livros de Sagan, Dawkins, Hawkins, DeGrasse Tyson, Pirula e alguns menos conhecidos. Mesmo assim, as promoções não estavam tão atraentes (variavam entre 10% a 20% de um preço já razoavelmente alto), e não me senti inclinado a investir. De resto, minha busca foi frustrante.

Sabe, não vou culpar ninguém por causa disso. Eu entendo a necessidade das editoras de promover o máximo possível os livros com maior saída. E também entendo a falta generalizada de interesse que o público tem por livros sobre ciência. Sequer os preços ajudam. Livros bons de ciência não são baratos, e é preciso uma boa dose de incentivo pessoal e vontade para investir nesta literatura. Além disso, a grande maioria não tem o hábito de ler, e desta forma a literatura científica não goza do prestígio de ser colocada no panteão dos "mais vendidos". Apesar disto, a Bienal é um evento gigantesco, que dura uma semana inteira repleta de pessoas. E isso com certeza é positivo.

Resumindo, a bienal é um bom pontapé inicial para instigar o interesse por livros e pela leitura. É igualmente boa para um leitor voraz que tem um apetite respeitável para uma variedade grande de literatura, e quer garimpar promoções. Para leitores mais específicos, recomendo pedir as obras pela internet aproveitando algum cupom de frete grátis.

domingo, 6 de outubro de 2019

A Paisagem Moral - como a ciência pode determinar os valores humanos


Não sei se eu estaria certo em dizer que essa obra se apresenta tanto como um texto de divulgação científica quanto filosófico. Ele tem uma pegada bem mais reflexiva, apesar de apresentar uma respeitável quantidade de referências, notadamente em artigos científicos publicados em periódicos indexados, a moeda forte da comunicação no ambiente científico acadêmico. Mesmo com esse recheio de respeito, o livro é surpreendentemente curto, com pouco mais de duzentas páginas, excluindo aí as notas e a própria bibliografia. Enfim, o que você vai encontrar neste texto?

Sam Harris é um filósofo, que se tornou conhecido pela seu apoio veemente da ciência nos tempos atuais, um defensor de carteirinha do ceticismo e um crítico ácido da religião. Então não é surpresa que seu texto reflita exatamente isso. O que posso dizer é que o subtítulo da obra é bastante justo. Harris usa de sua habilidade na escrita para convidar o leitor a seguir sua linha de raciocínio, procurando enxergar nas aptidões e tendências humanas nada além do produto de um cérebro falho, que se desenvolveu num universo imperfeito, lapidado para sobreviver em um meio ambiente social, como é o ambiente humano. Um passeio pela natureza nua e crua da nossa mente. Mas se você está imaginando que vai encontrar uma série de explicações e resumos de experimentos que demonstram tudo isso, lhe aviso que isso não vai acontecer. Harris constrói mais um texto reflexivo (e aí você reconhece a pesada influência da filosofia permeando toda obra) com pouca liberdade descritiva.

A obra tem mais de trinta páginas de referências, o que a torna riquíssima, mas não espere encontrar um aprofundamento na maior parte delas. A caneta do autor prefere lhe convidar para seguir uma linha de raciocínio pela ética e pela moral, apenas recorrendo às citações para fortalecer algumas conclusões ou certos pontos de vista. Não que a obra não tenha alguma história. Pelo contrário, ele vai abordar uma narrativa mais descritiva aqui e ali, conter inclusive suas próprias experiências, mas tenha consciência que ele prefere desenvolver seu próprio pensamento, e faz isso com bastante minúcia. Seu passeio sobre a crença, seja em tribos primitivas seja entre cientistas renomados, é a cereja no bolo. Ela é explorada amplamente, e ele dedica um bom tempo para dissecar o talvez paradoxal "ciência x religião".

Seu discurso é ácido, e você nota no texto. Mas para um autor reconhecido pelos seus embates em programas de televisão, não é surpresa que aconteça assim no papel. Harris não flui tão suave, apesar de ter um jeito simples de escrever. Ele não tem a caneta fácil você encontra num Sagan ou num Dawkins, e não posso sequer dizer que é por causa de seu terreno pouco explorado. É uma leitura que, para ser bem digerida e aproveitada, leva um tempo. E esse tempo é medido pela sua disposição em acompanhar o caminho do autor. Uma obra que serve para exercitar seu poder de lógica e raciocínio dentro do universo da ciência, da moral e da crença. É um texto que não deve deixar uma impressão muito forte depois de terminado, mas que pelo menos vai lhe dar alguma coisa pra pensar. 


quinta-feira, 3 de outubro de 2019

O Mundo Assombrado pelos Demônios



Se você já acompanha meu blog, então você já chegou aqui com um interesse por literatura de divulgação científica. Pois bem. Estamos nos referindo agora a um dos autores mais conhecidos sobre o assunto, e provavelmente a inspiração de muitos divulgadores científicos da atualidade. São poucas as pessoas que se interessam por ciência e nunca tenham ouvido falar do astrônomo Carl Sagan. Se você é uma delas, então segue um excelente conselho sobre este simpático americano: leia-o.

Sagan popularizou-se pela sua notável série de televisão Cosmos, um verdadeiro fenômeno em termos de uso de veículos de comunicação para ensinar sobre ciência. Além de ter sido extremamente bem sucedida, com uma audiência absurda (numa época em que a televisão reinava absoluta como meio de comunicação áudio-visual) e extremamente bem conceituada. Talvez este seja o maior exemplo que temos de como é possível levar ciência de forma simples e eficiente para centenas de milhares de pessoas, tendo obviamente como carro chefe um apresentador carismático e sorridente como Sagan era, além de cientista.

Se ele se notabilizou por seu programa de televisão, não deixou a literatura por menos. No seu Mundo Assombrado pelos Demônios, Sagan deixa um pouco de lado seu ímpeto de mostrar e deslumbrar o público com ciência para se dedicar a uma parte menos exuberante, mas não por isso menos importante, que é mostrar como ciência funciona. O título, por exemplo, faz uma alusão ao teor geral que vai nortear todo seu texto. Tomando uma postura mais ativista, Sagan decide permear o mundo das crendices, lendas, conspirações e toda sorte de pseudociência que está espalhada por aí.  Mas seu volume não consiste somente neste raso terreno pouco amistoso. Entendendo que atacar as pseudociências de direta não é, digamos assim, rentável, ele decide trabalhar no delicado universo de como pensar sobre o mundo. De certa forma, está aí o diferencial de seu texto.

Com uma narrativa cativante e simples, embasada na sua gigantesca experiência, Sagan nos apresenta um volume ambicioso. Aqui seu objetivo é mostrar o raciocínio cético a respeito das informações a que temos acesso, e ele não poupa espaço para fazer isso. Sustentado em dezenas e dezenas de relatos bem escritos e curiosos, desde alucinações até alienígenas, Sagan vai conduzindo o leitor nestas histórias e ao mesmo tempo lhe convida para que raciocine de forma imparcial sobre cada uma delas. Numa tacada de mestre, Sagan envolve o leitor na forma como um cientista pensa, acompanhando-o na sua análise sobre cada uma destas questões. Talvez este seja o livro mais popular que se tem hoje que nos apresenta de forma clara às famigeradas falácias. Ele entendia que a nossa capacidade de discernir o certo do errado estava centrada no discurso na qual a informação estava inserida, e que precisávamos aprender a reconhecer argumentos falhos, para assim ativar nosso precioso "desconfiômetro" e não se deixar enganar. Sua obra apresenta um vasto ensaio na refinada arte de detectar mentiras (e isto é um dos nomes do capítulo de seu livro).

Seu texto é uma verdadeira ode à ciência e ao pensamento científico. Merece uma leitura inicial completa para garantir uma imersão mais efetiva na arte de pensar ceticamente. Não sendo apenas uma dentre muitas, o Mundo Assombrado pelos Demônios é leitura altamente recomendada para quem quer dar os primeiros passos em desenvolver uma visão crítica sobre o mundo. E a caneta de Sagan fez escola. Não exagero em imaginar que sua obra foi inspiração para dezenas de divulgadores científicos que lhe seguiram.

Disponível na versão pocket da série Companhia de Bolso, da Companhia das Letras, o livro é elegante, em páginas foscas e amareladas. Para economizar espaço, o espaço entrelinhas é reduzido, mas a fonte destaca-se de forma elegante. Não terá problemas na leitura. As quase quinhentas páginas simplesmente desaparecem pelo formato reduzido da obra, trabalhada num ritmo agradável que convida à leitura rica e continuada. Você vai gostar.